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MÍSTICA
DA RESISTÊNCIA
Pe.
Joacir Della Giustina
1.
Mística
A
mística é a dimensão integradora
que reanima constantemente as energias vitais.
Por isso vai além do simples interesse
por algo e está acima dos sucessos e
fracassos. Está muito longe de ser identificada
como fuga ou uma "mistificação".
É uma experiência
forte, pessoal e coletiva no rumo da satisfação
da imensa sede de plenitude humana. Através
dela é que se revitalizam os grandes
sonhos de um mundo novo com relações
sociais mais benevolentes e amorosas.
A mística é
também uma paixão muito forte
por uma causa, seja ela religiosa, humanística
ou política. Sem ela a militância
não sobrevive. É por causa desse
entusiasmo que muitos visionários caminharam
como se enxergassem o invisível por detrás
dos acontecimentos da vida e da história.
Foi através dela que os primeiros cristãos,
inspirados no ideal libertário da memória
subversiva de Jesus, ousaram desafiar até
o poderoso império romano. Para outros,
os ideais emancipatórios da Revolução
Francesa (liberdade, igualdade, fraternidade)
são ainda fonte mobilizadora. Manifesta-se
na profunda indignação em face
da miséria e como ato de amor político
e revolucionário pelos oprimidos.
Essa força da mística
é que produz em todos a coragem de
resistir, protestar, dedicar-se e arriscar
na permanente busca da libertação.
A mística é
por excelência inovadora e criativa. Por
isso é que os místicos não
aceitam uma adaptação que apenas
lhes garante a sobrevivência. As conquistas
nunca são a totalidade dos ideais, sempre
são relativizadas por novos desafios.
Quem se move por uma mística
não aceita a angústia como o fim,
ou a última palavra. Porque o que entra
em crise aí é a projeção
da utopia. E os percalços históricos
não conseguem conter o grande sonho nem
impedir sua realização na vida
das pessoas, das comunidades e povos.
2.
Mística Bíblica
A
mística bíblica é a mística
dos olhos abertos e mãos operosas tomando
o partido dos fracos. (São exemplos:
Moisés e a libertação do
povo hebreu, Isaías e a passagem em 65,
17-25 ou Zacarias e o item de 8,4-5). Mas esta
mística do compromisso ético e
solidário relaciona-se fortemente com
a mística da contemplação
que é o saboreamento da presença
da divindade na criação, no trabalho
humano e na vida das pessoas. Por outro lado,
também é verdade que a espiritualidade
também se estreitou e não raro
apresentou-se como uma prática devocional
intimista ou de sofisticado esforço intelectual,
rejeitando uma espiritualidade afetiva e apaixonada
e negando a visão bíblica do político-libertário
contemplativo (por exemplo, D. Helder Câmara).
2.1.
Mística e Religião
A
mística cristã diz relação
direta com a espiritualidade. Ela é uma
grande gestadora de esperança, de grandes
sonhos, de um destino transcendente do ser humano
e do universo. Reafirma o futuro contra a evidência
cruel da morte.
Sem a mística a ética
se transforma num código frio de preceitos
e as várias morais em processos de controle
social e de domesticação cultural.
Por isso, a ética, como prática
concreta, remete para uma atmosfera mais profunda,
àquele conjunto de visões, sonhos,
utopias e valores inquestionáveis que
se compediam na mística.
A prática bíblica
do "hesed" (benevolência, misericórdia,
amor) no livro de Miquéias apresenta
a mística da resistência recheada
com a ternura de Deus.
"Ó
homem, já foi explicado o que é
bom
e o que Javé exige de você:
praticar o direito, amar a misericórdia,
caminhar humildemente com o seu Deus."
(Miq 6,8)
Hesed
aqui é a atitude radical de quem não
se deixa corromper. É a rejeição
de qualquer contato com e esquema de exploração
organizado pela aliança entre o poder
político e o religioso. É a fidelidade
radical a uma causa, a um projeto. É
a pessoa que não se deixa corromper,
que não aceita as regras do jogo que
parecem naturais porque todo mundo faz isso.
É o homem justo, o honesto, a pessoa
reta, no sentido de que vai em frente como quem
percorre uma estrada sem curvas, coerente com
seus ideais, apesar de todo mundo em volta fazer
o contrário. Basta ver o que ele diz:
"Pobre
de mim! Estou na situação de alguém
que colhe no verão,
que colhe depois de acabada a colheita.
Não há nenhum cacho de uva para
eu chupar,
nem mesmo um figo temporão para me matar
a vontade.
(...) Essa gente tem mãos habilidosas
para praticar o mal:
o príncipe exige, o juiz se deixa comprar,
o grande mostra sua ambição.
E assim distorcem tudo.
O melhor deles é como um espinheiro,
o mais correto deles parece uma cerca de espinho!
O dia anunciado pela sentinela,
o dia do castigo chegou: agora é a ruína
deles." (Mq 7,1-4)
Hesed
aí é um espírito de resistência
e de revolta. É a resistência de
quem não se deixa dobrar, que não
dá o braço a torcer e segue seu
caminho apesar de todos e de tudo. Também
é a esperança firme de que as
coisas terão que mudar, que o bom vai
voltar a parecer bom e que o ruim vai ser jogado
fora. Hesed é o espírito de resistência
e de revolta. Hesed é Javé quando
perdoa e revoga a sentença, o pai terno
que sofre ao ver o castigo dos culpados e muda
de idéia. Mas é também
quem resiste à onda geral de injustiça,
condena e reclama e prega, ou até organiza,
a subversão, a revolta (Mq 7,2)
2.2.
Transfiguração e Mística
A
tradição da Igreja entende a narrativa
da transfiguração (Mc 9,2-8) como
manifestação da glória
de Deus em Cristo, confirmando ser Jesus o Messias
anunciado, esperado por Israel.
Esta narrativa, sob determinado
ponto de vista, pode ser analisada a partir
da sua carga simbólica que traduz uma
experiência mística. Neste sentido,
é possível fazermos uma leitura
mística da narrativa.
O chamado para subir ao monte.
A experiência mística nasce mesmo
de um convite especial para retirar-se e "subir
ao monte". O chamado é para retirar-se
dos demais, e subir ao monte, subir ao alto,
permitir-se ser elevado à transcendência
onde habita o Ser Altíssimo. Ora, quem
sobe ao alto de um monte vislumbra um panorama
extraordinário, enxerga bem mais ao longe
e tem a visão daquilo que não
se vê quando se está embaixo, no
vale, na imanência.
Na montanha é que surge
a visão da glória de Deus, a manifestação
tremenda da presença do Altíssimo,
diante da qual a única atitude possível
é realmente a contemplação.
A nuvem, simbologia do AT,
é o sinal da presença da divindade.
Sinal do Mysterion. Também na ascensão
de Jesus a neblina aparece na narrativa. A neblina
encobre a visão de algo que, no entanto,
se sabe que está lá. A experiência
mística é a consciência
do Mysterion, do Oculto mas Presente, do que
ninguém, mas sabe-se que está
ali.
Mas o monte, o estar retirado,
a experiência do deserto, é também
lugar de tentação (Mt 4,1-11).
A experiência mística não
exclui também a experiência da
tentação porque também
o maligno faz o seu chamado, e por isso é
necessário vigiar e orar para não
cair em tentação. O estado de
contemplação é também
um estado de vigília. E, de todas as
tentações, a mais comum que o
místico enfrenta é a de permanecer
no êxtase, de negar o resto da realidade,
de montar tendas e alienar-se. A subida ao monte
implica também na descida ao vale...
e ao desafio da cruz. Há sempre o momento
de subir e o de descer.
Assim o ser místico
não é, simplesmente uma relação
diferente com o Transcendente, mas uma relação
diferente com a divindade porque pressupõe
uma relação diferente com o mundo.
É ser capaz de ver na realidade (imanência)
o que a maioria não é capaz de
ver (transcendência).
3.
Mística da Resistência
A
mística da resistência se
expressa também de acordo com a conjuntura
e a própria cultura: aparece como indignação,
protesto, conflito, disputa, articulação.
Porém, para o cristão, jamais
pode perder a dimensão da espiritualidade
(fé), celebração, reza
e, além destas expressões, a ternura,
o lazer, o ócio, a festa, a poesia...
A felicidade com o que sonhamos deve começar
a se manifestar desde já.
A mística se revela
como convite para que a pessoa se insira na
sua própria interioridade e vivencie
sua transcendência. Reside aí o
dinamismo da resistência e a fonte do
eterno sonho de vida plena e de liberdade, valores
pelos quais os militantes chegam até
à doação da própria
vida.
A mística da resistência
reside no coração. Ela não
encontra razões intelectuais; impossível
racionaliza-la. Os obstáculos surgem
como possibilidades de amadurecimento, de reflexão
e de revigoramento das energias. A mística
da resistência é aquela força
interior que faz com que, ao encontramos um
"cupim", não o transformemos
em montanha; que faz com o ciclista se lembre
que para manter-se em equilíbrio é
necessário que se ponha em movimento.
A mística dá o entusiasmo para
a audácia.
4.
Mística e Moral Social: Resistência
Costuma-se
dizer que a mística é culpada
pelo enfraquecimento da moral social. Acusa-se
a mística pelo seu quietismo frente a
problemas reais, onde a mesma se mantem indiferente
frente aos sofrimentos dos outros e menospreza
as necessidades humanas básicas em favorecimentos
de valores imaginários. Também
se acusa a mística de relativizar o corpo,
menosprezando os seus interesses.
É verdade que o pensamento
místico insiste na valorização
de algo que transcende o mundo fatual, algo
que pesa mais que os bens materiais. O que interessa
ao místico é o ser e não
o ter.
Mas não é verdade
que a desvalorização dos interesses
do corpo seja resultado de um egocentrismo da
mística. É o próprio corpo
que sofre quando desvalorizado na hierarquia
de valores, e não o corpo dos outros.
Pelo contrário, na história os
místicos da dor têm com as dores
dos outros, dos semelhantes, uma relação
de compaixão. Isto queria dizer um acréscimo
à própria dor, pois compaixão
quer dizer, sofrer junto com. Carregar a própria
cruz e ajudar os outros a carregar o peso da
sua, isto era o que significava, para eles,
"seguir a Cristo". É por isso
que ainda hoje encontramos muitos religiosos
em hospitais de caridade ou santas casas. E
se chamam assim porque são na perspectiva
da mística da dor, o lugar privilegiado
para uma aproximação àquilo
que existe de mais importante do que tudo. Ali
transparece a finitude humana abraçada
pela infinitude divina, a fragilidade amparada
pelo amor, a solidão dolorosa aliviada
pela comunhão.
Essa relativização
dos interesses do corpo pela mística
inclui também outras necessidades, como:
moradia, educação, saneamento
básico etc.
A relativização
da importância das necessidades sociais
pela mística têm muito a ver com,
esta postura ambígua do cristianismo
frente ao poder mundano. Esta acusação
afirma que o movimento místico radicaliza
tal perspectiva de uma forma que parece promover,
por um lado, a fuga do mundo. Porém,
por outro, significa de fato um questionamento
radical do mundo do qual foge.
Mas, é verdade que
as afirmações acima correm grande
perigo: deixar-se seduzir pela coragem individual
e achar que qualquer pessoa corajosa tira sua
força de resistência contra o terror
coletivo de uma fonte fora da sociedade.
A mística da resistência
é bem mais ampla que a moral social ou
a ética. Enquanto a ética se refere,
muito mais ao agir e omitir, valorizando o fazer
e a moral, muitas vezes, como uma representação
social e como produto da consciência coletiva,
a mística da resistência insiste
na afirmação que tudo o que é
não é tudo. Que sempre existe
algo a mais, um algo diferente, um ainda-não,
um não-mais. A mística da resistência
resiste tanto à homogeneização
e uniformização das pessoas, como
contra a funcionalização e banalização
dos cinco sentidos, como a resistência
contra o vazio no coração das
mulheres e homens modernos.
Engana-se quem diz que a mística
da resistência é incompatível
com o engajamento no trabalho social ou político.
Atuar na perspectiva do escaton é o que
oferece o recurso de resistir numa situação
de abandono total, na noite escura do sofrimento
e fechamento total para alternativas. Essa mística
faz com que transpareça na própria
dor o sentido dessa dor.
A mística da resistência
é quem resgata, também, o sentido
trágico e heróico da existência
humana. O trágico consiste na impossibilidade
de atender aos deuses e aos homens ao mesmo
tempo, isto é, a impossibilidade de viver
a vida quotidiana conforme os costumes da época
e aproximar-se do essencial e autêntico.
O heróico é a persistência
na resistência contra esta possibilidade.
Na convivência humana,
essa mística da resistência é
quem nos faze descobrir que o mais distante
é o próximo, e que o próximo
é o mais distante.
5.
Resistir - a chama acesa da Mística
Os
agentes de pastoral têm muita coisa em
comum com Moisés: especialmente esta
coisa de ser capaz de extasiar-se diante das
"sarças ardentes". O fogo que
não se apaga é uma porta privilegiada
para ver a dor e o sofrimento do povo. Frente
a essa chama inextinguível, Moisés
soube parar e contemplar. Os agentes de pastoral
são chamados a contemplar as sarças
que ardem no meio do povo. Existem sarças
com rostod e gente sofrida e machucada. Que,
apesar da dor, resistem.
Existem sarças que
são gente de Deus no meio de nós.
Sarças que queimam e incomodam; que inquietam
e questionam. Sarças que carecem de quem
as contemple.
O relato da sarça ardente
nos faz pensar no rosto vivo e machucado de
Jesus estampado no sofrimento de pessoas do
povo. Existe uma mecha que ainda fumega (Is
42,1-3), mas que resiste e não se apaga.
É verdade que para
muitos agentes de pastoral, muitas vezes, falta
o entusiasmo e a audácia de grandes evangelizadores.
Mas a resistência nasce de algumas convicções
profundas que se tornam utopias. Tem alimento
nas próprias palavras de Jesus: "Eu
vim trazer fogo à terra, e como desejaria
que já estivesse aceso! Devo receber
um batismo, e como me angustio até que
esteja consumado" (Lc 12,49-50). Esse texto
é um convite ao serviço corajoso
de resistência a tudo aquilo que oprime
a vida e de defesa dos oprimidos e excluídos.
Assim se expressava Santo Agostinho, em Confissões:
"O
que amo, quando amo Deus?.... quando ao amo,
amo uma certa luz, uma certa voz, uma como que
fragância, um alimento, um abraço;
amo tudo isso quando amo a Deus - luz, voz fragância,
alimento e abraço para o meu homem interior.
N'Ele a minha alma vê uma luz que não
se apaga, n'Ele ouve melodias infinitas; n'Ele
se expande a fragância de perfumes que
não são dissipados pelo vento,
n'Ele saboreia-se um alimento que nunca sacia;
n'Ele o abraço é tão estrito
e íntimo que nenhum cansaço o
pode desfazer. Isso é o que amo, quando
amo a Deus. E o que é isso?"
Nossa
mística libertadora nasce como filha
da rebeldia que se inebria na luz, na voz, na
fragância, no alimento e abraço
do nosso Deus e Pai maternal.
Bibliografia:
BOFF,
Leonardo e BETTO, Frei. Mística e Espiritualidade.
Ed. Rocco. Rio de Janeiro, 1994.
TEIXEIRA, LCG. A transfiguração
de Jesus: Uma pista para compreender os caminhos
da mística. In: Grande Sinal, Maio-Junho
de 1999 - Ano 53, Ed. Vozes, Petrópolis,
pp. 285-297.
LAGO, Lorenzo. Miquéias: Resistir ou
Perdoar? In: Estudos Bíblicos, nº
72, Ed. Vozes, Petrópolis, 2002, pp 21-34.
BRÜSEKE, Franz Josef. A Ética da
Resistência. UFSC. Mimeo.
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