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Síntese

Campanha da Fraternidade Ecumênica – 20101

Lema: Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro(Mt 6,24)

 Economia e Vida

Conic: Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil


Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro(Mt 6,24). A frase nos coloca o desafio de uma escolha quotidiana em nossa vida. O fundo escuro representa a penumbra de um templo onde uma pessoa reza ao Deus ou ao Dinheiro como se fosse Deus? É a luz de Deus que ilumina ou é o cintilar do ouro que atrai? O dinheiro é necessário para a sobrevivência. No entanto ele não pode ocupar o lugar de Deus, tornar-se um deus na terra fechando os nossos olhos às necessidades do próximo. O cartaz convida a por a nossa confiança em Deus na fuga da ganância e do egoísmo para a construção de um mundo mais justo e solidário.


Apresentação

As Igrejas cristãs através do CONIC apresentam a terceira CF que está sendo realizada de uma forma ecumênica. Essa tem como objetivo geral: “Colaborar na promoção de uma economia a serviço da vida, fundamentada no ideal da cultura da paz, a partir do esforço conjunto das Igrejas cristãs e de pessoas de boa vontade, para que todos contribuam na construção do bem comum em vista de uma sociedade sem exclusão”. É necessário conclamar a todos e assumir uma atitude de denúncias diante da realidade econômica para que a economia possibilite a vida para as pessoas. A CF quer ter presente as palavras de Jesus: não acumuleis tesouros na terra, mas no céu(cf. Mt 6,19-20a): não se pode servir a dois senhores: a Deus e ao dinheiro(cf. 6,24).


Introdução

A CF Ecumênica – 2010 – é promovida pelo CONIC – Conselho Nacional de Igrejas Cristãs sendo esta a terceira vez que está sendo realizada como o foram em 2000 e 2005. O amor de Deus e o testemunho de fé em Jesus Cristo movem a vida das Igrejas. As palavras de Jesus Cristo são fundamentais: vocês serão os meus discípulos se vocês tiverem amor uns pelos outros(cf. Jo 13,35). Essas palavras ressoam nos seguidores de Cristo para que sejam testemunhas da fraternidade, justiça e paz sobre a terra. O CONIC levanta algumas perguntas necessitadas de respostas: Como a fé cristã inspira uma economia em vista do bem comum? Quais aspectos deveriam sofrer mudanças no nível pessoal e estrutural para que a economia esteja a serviço da vida e do bem comum? O CONIC não quer apenas ficar numa atitude de criticas aos sistemas econômicos. A CF espera a mobilidade das Igrejas e da sociedade para dar respostas concretas às pessoas fundamentadas em alternativas viáveis pela visão de um mundo justo e solidário. O Bem comum é tudo aquilo que visa o desenvolvimento integral da personalidade, dizia Pio XII. O bem comum requer o empenho social e o desenvolvimento de grupos e de pessoas dos quais implica a paz, estabilidade e a segurança de uma ordem justa. Bem comum não é interesse geral porque esse visa o coletivo: bem comum envolve os membros da sociedade, do qual ninguém é isento de colaborar, participar de acordo com as possibilidade de cada pessoa. Todos devem aproveitar as condições da vida social decorrentes do bem comum. O bem comum diz respeito à pessoa e a toda a sociedade o que faz a autoridade política possibilitar o zelo pelo mesmo.


O Conic: a sua fundação ocorreu em 1982. Ele é uma associação fraterna de Igrejas que confessam o Senhor Jesus Cristo como Deus e Salvador. A sua missão consiste no trabalho da unidade em Cristo, defesa pela integridade da criação promovendo a justiça e a paz em vista da glória de Deus. As Igrejas que fazem parte do CONIC:
- Igreja Católica Apostólica Romana;
- Igreja Episcopal Anglicana do Brasil;
- Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil
- Igreja Presbiteriana Unida do Brasil;
- Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia.

Essas Igrejas querem num contexto ecumênico viver o centenário do grande encontro missionário que irá se celebrar em 2010 quando em 1910 as Igrejas da Reforma realizaram em Edimburgo na Escócia um pedido pela unidade do anúncio do evangelho. Tudo possibilitou o movimento ecumênico que em 1948 gerou o CMI – Conselho Mundial de Igrejas composto no momento atual por 340 Igrejas. A Igreja Católica Romana fez de 1962-1965 o Concilio Vaticano II o qual ressaltou o ecumenismo. A Igreja Católica não é membro pleno do CMI mas participa na sua Comissão Fé e Constituição, atua na organização da Semana Nacional de Oração pela unidade dos cristãos, e faz parte dos Conselhos Ecumênicos Nacionais. A reflexão da CFE= (Campanha da Fraternidade Ecumênica) está em comunhão com a proposta da Globalização Alternativa Dirigida aos Povos e à Terra, com o CONIC e o CMI que em 2010 quer avaliar a década para a superação da violência(2001-2010). Essas atividades e eventos são percebidos como propostas à fidelidade ao projeto e Deus, do evangelho e do seguimento de Jesus. A parceria ecumênica tem como objetivo o empenho por um mundo melhor para todas as pessoas, o bem comum, a defesa da vida, como valores mais importantes que os interesses do mercado.

A CFE visa a construção de novas relações abrindo caminhos de solidariedade. A vida em fraternidade é expressão do evangelho do qual testemunha a nossa condição de filhos e filhas de Deus. Quaresma quer possibilitar a conversão, momento favorável em vista da salvação(cf. 2 Cor 5,20-6,3). O espírito quaresmal alude à pessoa em todas as dimensões: pessoal, comunitário e social.

A CF deste ano está em comunhão com as Campanhas da Fraternidade Ecumênicas até agora realizadas como a de 2000 que tinha como tema Dignidade Humana e Paz e o lema escolhido foi: Novo Milênio sem exclusões. Em 2005 o CONIC promoveu a CF com o tema: Solidariedade e Paz e o lema foi: Felizes os que promovem a paz. O ano de 2010 o tema é: Economia e Vida e seu lema: “Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro”(Mt 6,24).

A reflexão se dá sobre a Fraternidade e economia. Economia vem do grego: Oikós, nomós; cujo significado é administração da casa em vista da sobrevivência. A economia deve estar a serviço do bem comum.

A CFE possui como objetivo geral:

Colaborar na promoção de uma economia a serviço da vida, tendo presente a cultura da paz para que assim todos contribuam na construção do bem comum em vista de uma sociedade sem exclusão.

A CFE tem presente também objetivos específicos;

Sensibilizar a sociedade para a valorização de todas as pessoas;

Buscar a superação do consumismo;

Criar laços entre as pessoas em vista do conhecimento e a superação do individualismo;

Mostrar a relação fé e vida decorrentes do anúncio do Evangelho;

Reconhecer as responsabilidades individuais em vista da própria conversão.

Os objetivos da CFE 2010 adotam as seguintes estratégias;

  1. Denunciar o modelo econômico que tem como base o lucro não dando importância à desigualdade, a fome e a morte;

  2. Educar em vista de uma economia solidária;

  3. Conclamar as Igrejas,as religiões e a sociedade para ações sociais para a implantação de um modelo econômico de solidariedade e de justiça para todas as pessoas.

  4. Essas estratégias vão ser trabalhadas em quatro níveis: social, eclesial, comunitário e pessoal de modo a todos se empenharem pela grande casa comum, que o Planeta Terra, buscando mudanças na economia para uma melhor administração da casa comum.


A VIDA EM PRIMEIRO LUGAR

“Cuidado! Guardai-vos de toda ganância; não é pelo fato de um homem ser rico que ele tem a vida garantida pelos seus bens”(Lc 12,15).

Deus nos criou como um ato livre de sua vontade; nós vivemos como uma dádiva da qual nós devemos estender de forma incondicional. A lógica do mercado paga a troca de bens e serviços. Esse mecanismo faz com que muitas exigências humanas coletivas e qualitativas não possam receber satisfação. A dádiva nos faz lembrar que nós não somos donos da vida. Tudo é dado. A sociedade de mercado nos afasta das raízes da vida que são a solidariedade, a fraternidade e o amor. A nossa vida não depende dos bens que possuímos: “Não é pelo fato de um homem ser rico que ele tem a vida garantida pelos seus bens”(Lc 12,15).

Um dos conceitos mais controversos no mundo atual é aquele que versa sobre a água como valor econômico. Essa foi sempre vista como recurso natural e abundante. Porém com a escassez aparece o valor econômico da água. Quanto mais pesar a água na sua forma econômica mais racional será o seu uso. No entanto a água não pode estar gerida à categoria de mercadoria ou pelas leis de mercado. As conseqüências serão graves se a água for considerada como uma mercadoria como outras, regida pela lei da oferta e procura. Uma fabrica de cerveja retira a água do poço artesiano sem pagar nada por ela e ela polui com detergentes e dejetos o rio mais próximo. Uma lei deveria existir para o esgoto industrial. A água é um bem de domínio público de modo que quem usa mais paga mais, e quem usa para fins lucrativos paga mais do que quem usa para consumo pessoal. As multas ocorrem para quem polui porém mais que a multa é preciso a conscientização para evitar a poluição.

O problema atual no debate que se está fazendo é tornar a água em mercadoria fator que representara o triunfo da lógica do mercado e a transformação da água em lucro para empresas capitalistas. Algumas empresas transnacionais querem tornar a água valor econômico para o próprio pais. No entanto essa ideologia tira a água o seu caráter sagrado, vital na sua dimensão humana. Um projeto comum está sendo desenvolvido entre a CNBB e o CONIC desde a CF-2004 com a Declaração Ecumênica da Água como Direito Humano e Bem Público.

Os anúncios nas revistas, TV e cartazes de rua colocam pessoas cheias de vida não se importando com os outros, os que sobram na corrida do sucesso. O Planeta Terra é um grão de areia na imensidão do Universo. O homem e a mulher são chamados pelo Criador a cuidar da criação pela pluralidade das formas de vida. A ganância faz com que multidões adoecem e sobrevivem na indigência. A humanidade consome mais das coisas que a terra produz e por isso demos inicio ao processo de autodestruição. O respeito à criação é respeito ao Criador. O cuidado com o planeta é um dever de nossa fé e um dever para com a vida. Quando a economia idolatra o mercado não enxerga as pessoas e por isso possibilita a corrupção, devastação planetária, desrespeito ao cidadão. No entanto crescem iniciativas através de organizações, entidades e movimentos sociais para reconstruir a casa, o planeta Terra.


A Vida ameaçada.

“Havia um homem rico que se vestia de púrpura linho fino e que fazia diariamente brilhantes festins. Um pobre, chamado Lázaro, jazia coberto de úlceras no pórtico de sua casa”(Lc 16,19-21).

A parábola de Jesus não retrata a situação de injustiças na sociedade de Jesus. Tal situação retrata a sociedade brasileira e mundial nos tempos atuais. Um bom número de brasileiros está no estado de pobreza e o Brasil possui elevados níveis de pobreza. Segundo o IETS(Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade) havia em 2007 no Brasil, 10,7 milhões de indigentes, ou seja famintos e 46,3 milhões de pobreza sem acesso à alimentação, habitação, vestuário, educação lazer e outros. Esses dados poderão mudar se a sociedade se organizar colocando o ser humano acima dos interesses de mercado. A crise econômica global levou umas 100 milhões de pessoas à pobreza este ano. E segundo a FAO(Organização das nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) o número de pessoas famintas poderá chegar a um recorde de 1,02 bilhões de pessoas este ano. A crise da fome é um grave risco para a segurança e a paz mundial.

A CF Ecumênica 2010 se dirige aos pobres do Brasil e do mundo, aos cristãos e cristãs e como Dom Helder Câmara pergunta: por que tanta desigualdade? Porque há tantos indigentes? Ela quer estender a mãos famintos, aos moradores de rua, sem-teto, aos desempregados. As Igrejas cristãs se comprometem a fazer o que é possível fazer ao seu alcance contribuindo para uma sociedade mais justa e solidária.

Os pobres são capazes de nos dar lições de vida superando desta forma o preconceito. Os pobres buscam um futuro melhor para os seus filhos e filhas de modo nós devemos olhá-los com maior carinho e amor. Eles devem ser socorridos e valorizados em suas potencialidades e capacidades. Dom Helder compôs um poema muito interessante:

As políticas econômicas visaram proteger o patrimônio dos ricos ao invés de se reverter aos pobres. O colonizador europeu sugou muitas coisas dos povos nativos. A libertação dos escravos não favoreceu uma vida digna para eles porque eles se tornaram mais explorados sob outras formas. O Brasil tem uma alta taxa de analfabetismo com 11,1% das pessoas que não sabem ler nem escrever. O modelo brasileiro desenvolvimentista foi construído entre os detentores do poder e da riqueza, do Estado e de dinheiro estrangeiro à custa de empregados não bem remunerados e massa dos pobres. Este modelo fracassou deixando uma herança de dividas públicas enormes, falta de recursos porque são canalizados para os juros e amortizações da divida pública. Uma auditoria da dívida está prevista na Constituição Federal mas isso nunca foi realizada.

A divida interna alcançou a cifra de R$ 1,6 Trilhão em Dezembro de 2008. E a dívida externa cresceu US$ 26,5 bilhões em 2008 para US$ 267 bilhões. No século XXI O Brasil volta a crescer com a democracia, a estabilidade da moeda, a distribuição de renda mas a sua divida social aumenta porque os pobres tem acesso aos bens públicos. O Plano de Aceleração do Crescimento pode possibilitar o volume global de recursos no entanto os pobres não tem condições de vida. No Ceará, Bahia e Maranhão muitos vivem em situação de extrema indigência. As políticas de reforma agrária não possibilitaram uma vida digna para milhões de famílias brasileiras. O agronegócio está aumentando com uso irresponsável dos recursos naturais. Os políticos querem obter lucro e privilégios para si mesmos sem levar em conta as reais necessidades do povo. Segundo o INCRA(Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) existe no Brasil 300 proprietários que possuem terras em uma área que formariam os Estados de São Paulo e Paraná juntos, enquanto 4,8 milhões de famílias esperam por um chão para plantar. O meio ambiente está numa situação de degradação. O consenso dos cientistas deveria ser aprofundado em relação ao planeta terra porque há desleixo e exploração predatória dos ecossistemas e biomas que põem em risco a vida das gerações futuras. Se os países ricos são aqueles que mais deterioram o meio ambiente no entanto o Brasil não pode assumir uma posição de poluir, desmatar, coisas que os países risco fazem porque participaríamos de suicídio coletivo na destruição do pequeno planeta em que nós vivemos.

O Brasil está num estado democrático. Este processo deve levar às pessoas à educação, saúde, trabalho, segurança, previdência social, assistência aos desamparados. No entanto não chegamos a este nível de uma vida digna para todos. Um dos maiores problemas nacionais é a divida pública federal que impede a destinação de recursos para o crescimento social e de uma vida digna. Ainda que a economia seja uma parte de uma cultura, no entanto a economia de mercado coloca o financeiro acima de todos os demais e transforma tudo em mercadoria criando acúmulos de supérfluo. O modelo de conduta maximiza o lucro e satisfaz a ganância ilimitada. A pessoa não possui valor a não ser mão-de-obra na produção capitalista e consumidora de produtos para o lucro de empresas e pagadoras de impostos. Este modelo impõe regaras ao Estado. Algumas Igrejas seguem este modelo tornando os bens religiosos em mercadorias fazendo a teologia da prosperidade com a oração numa forma de comércio com Deus.

O consumismo induz à uma mentalidade para consumir sempre mais, possuir prestigio, valorização e as coisas não passem do durável. Muitas pessoas compram a toda hora. Muitos adolescentes buscam objetos mais modernos que os seus fazendo a violência praticada entre os adolescentes tenham aí a sua origem. Os pais passam necessidades para atender as exigências consumistas dos filhos e das filhas. Os produtos são logo colocados em segundo plano, nada serve ao durável sendo uma estratégia do mercado.

Grupos dominam há séculos o poder no Estado e a própria economia que possibilita o enriquecimento individualista sem limites e desrespeita a natureza provocando crises no próprio capitalismo e frustrando o desenvolvimento humano. O economista Muhammad Yunus, prêmio Nobel da Paz de 2006 disse a crise financeira abre perspectivas para um sistema financeiro para o povo pois todas as crises financeiras tem uma única origem: a maximização do lucro. A acumulação da riqueza foi acompanhada por um processo de domesticação do povo. Por isso a educação possui um papel fundamental que leva a pessoa a assumir a responsabilidade social, transformando a sociedade. Movimentos sociais e Igrejas e a própria CF que há 46 anos mobiliza as Igrejas e a sociedade são sinais incansáveis na luta do povo por vida digna. As campanhas políticas pelas Diretas Já!, a Constituinte, o protagonismo dos negros, indígenas, quilombos, mulheres, a ação da Cidadania contra a fome, a miséria e pela vida, as semanas sociais brasileiras e encontros que articulam Fé e Política, as campanhas contra a ALCA, a auditoria cidadã da Divida e o grito dos excluídos, práticas de economia solidárias, empresas que introduzem princípios de justiça no lucro, tudo isso quer possibilitar vida digna para o povo. Diante de uma situação que aflige o povo, o CMI(Conselho Mundial de Igrejas) chama a atenção para a libertação das mentes, a prática da vontade de Deus que deve ser cumprida no amor e na solidariedade, a economia solidária. O lugar das Igrejas é onde Deus está atuando, Cristo está sofrendo e o Espírito está cuidando da vida e ele resiste aos poderes destrutivos. As Igrejas não podem se distanciar do Deus Triúno para serem igrejas fiéis.


Economia para a vida

“Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro”(Mt 6,24)

A economia existe para a vida, a pessoa, o bem comum da sociedade e não a pessoa para a economia. Uma inversão de valores ocorreu nestes últimos tempos. A economia é apenas um instrumento que deve estar a serviço das pessoas e não o contrário. O lema da CF ecumênica deste ano é a afirmação de Jesus no evangelho de Mateus: “Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro”(Mt 6,24), propõe uma escolha entre os valores do plano de Deus e ao dinheiro como valor absoluto dirigindo a vida. O problema não é o dinheiro em si, mas o seu uso. Ele deve ser usado para servir ao bem comum das pessoas, na partilha, solidariedade porém não pode ser o critério absoluto dos atos dos indivíduos e dos governos.

O dinheiro mostra o tipo de pessoa que nós somos. Desta forma Jesus diz: “Onde estiver o teu tesouro, ali também estará o teu coração”(Mt 6,21). Quando o enriquecimento e a acumulação estão em primeiro lugar, os valores humanos, a pessoa, a vida, a relação com Deus e com o próximo passam em segundo plano. A acumulação tem profunda conseqüências espirituais. Uma economia que observa a acumulação e o individualismo está contra o plano de Deus que quer o bem de todos pois ele criou todas as coisas por amor. Uma economia ignora esse fundamento não só nega o sentimento religioso do povo mas é inaceitável para muitas pessoas de boa vontade sem alguma denominação religiosa porque percebem que a falta de solidariedade leva o mundo à tragicidade.

A Palavra de Deus nos convida a avaliar as nossas ações:

1) Âmbito social: os profetas acusam reis e gente poderosa à custa do povo (Is 3,13-15; Jr 5,27-29; Am 3,10).

2) Âmbito comunitário: a diária do trabalhador deve ser paga no mesmo dia, pois ele precisa disso para viver(Ex 19,13).

3) Âmbito pessoal: cada um é chamado à vivencia do amor fraterno e à partilha. Os conselhos de João Batista aos que o procuram: Lc 3,10-14.

4) Âmbito eclesial e da prática religiosa: Deus quer a justiça e a fraternidade. O culto será aceito(Am 5,24); A Carta a Tiago fala da comunidade não para ser um lugar de privilégios(Tg 2,1-10). A forma como são atendidos os órfãos, as viúvas e os estrangeiros é o termômetro de fidelidade do povo a Deus: hoje esses dados continuam questionando a vida de cada um de nós porque a Palavra de Deus é eterna. Nós incluiríamos os sem renda, migrantes, meninos de rua. A maneira como eles são atendidos reverte o nosso culto agradável ou não a Deus.

A Bíblia tem presente também o bem comum. As tribos recebem as suas terras conforme as suas necessidades. Só a tribo de Levi não recebera terra porque estará a serviço das tribos diante de Deus(cf. Js 14 e 19). Um ano sabático e um ano do jubileu são instituídos para a devolução de terras, remissão de dividas(Lv 25, 8-17). Cada um voltará ao seu clã quando será o qüinquagésimo ano. Deus não quer nenhum de seus filhos e filhas sem meios dignos e de desenvolvimento.

A Bíblia tem presente também o descanso da terra, pois o Criador criou o mundo e as coisas em seis dias e no sétimo descansou. O ano sabático(em cada sete anos) será de descanso da terra(Lv 25,1-6). As mudanças climáticas estão ocorrendo por causa da ação do homem e opções de política econômica. Uma consciência na defesa dos recursos hídricos está aumentando na família humana e cresce o compromisso de trabalhar cada vez mais pelas maravilhas da criação divina. A Bíblia fala que Deus é o Senhor e doador dos bens da criação(Sl 24,1; 1 Cor 10,26). A Deus são oferecidas também as primícias da criação porque ele é o Senhor de tudo(Dt 26,10). A terra deverá servir para outras gerações(Gn 17,8). A criação pertence aos seres humanos e a criação é de Deus. Qual pai se sentiria feliz se um de seus filhos se apropriasse de tudo deixando os seus irmãos na miséria e fome?

A bíblia deseja a justiça para os pobres. O respeito ao pobre é uma exigência básica da fidelidade a Deus: deve-se fazer o bem, a justiça ao órfão, a defesa da viúva (Is 1,17-18). O jejum que Deus deseja é a ajuda aos migrantes, porque o povo escolhido também foi migrante(Ex 22,20), uma atenção aos necessitados e à viúva. Se a bíblia fala de sociedades agrícolas na liberdade pessoal dos pequenos agricultores e de empréstimos e o perdão da divida aos pobres, no mundo moderno os bancos tomam conta do dinheiro na nossa sociedade favorecendo os depósitos volumosos emprestando a juros altos negando acesso aos pequenos empreendedores.

O papel do Estado está em vista da solução dos problemas sociais. Ele deve garantir o direito dos mais fracos. Muitas coisas melhoraram nestes últimos governos em favor dos mais pobres. No entanto é fundamental um permanente programa em vista dos mais excluídos da sociedade do qual deve partir também das organizações populares. Os direitos à uma vida digna devem ser estendidos também aqueles que tem trabalho informal.

Os discípulos de Jesus colocavam tudo em comum, uma vez que a economia do Império Romano fundava-se sobre impostos. A economia cristã fundava-se na distribuição da riqueza destinada a socorrer os segmentos mais vulneráveis da vida civil e social. “Repartiam-se conforme as necessidades de cada um”(cf. At 2,44-45); “Tudo era posto em comum”(Cf. At 4,32). As comunidades cristãs serão sempre lembradas ao longo dos séculos pelo amor a Deus e ao próximo. Ambrósio, Bispo de Milão denunciava a concentração de terras em mãos de poucos. Ele dizia também que um Nabot todo dia morre. Tu não estás dando ao pobre o que é teu, mas lhe devolves o que é dele, porque tu usufruíste um bem que era de todos. Basílio, Bispo de Cesaréia fala de não acumular bens supérfluos porque quem o faz sem o necessário pratica crime. Gregório de Nissa fala que a solidariedade para com o pobre deve ser lei de Deus e não apenas mero conselho. Jerônimo fala que não se deve usar a religião para o próprio bem-estar porque Jesus não nasceu em um lugar sagrado do templo, mas numa estrebaria para reerguer os que jazem no meio do lixo. O CMI exorta a todas as Igrejas assumir compromissos não só em palavras com também em atos.


Promover a Vida

“Senhor, eu reparto aos pobres a metade dos meus bens, e se prejudiquei alguém, restituo-lhe o quádruplo”(Lc 19,8).

O episódio de Zaqueu terminou com afirmação de Jesus que a salvação entrou naquela casa. Zaqueu entendeu duas coisas: a prática da justa repartição da riqueza e da devolução que não lhe pertencia(cf. Lc 19,8). Este ideal esteve presente na vida dos primeiros cristãos porque a fé em Deus tinha implicações sociais. A evangelização não ocorre sem o amor a Deus, amor ao próximo e zelo pela justiça social.

A CFE quer ser um instrumento à disposição das comunidades cristãs e de todas as pessoas no mundo para terem uma consciência critica e possam se desenvolver a justiça, a economia e a vida humana de modo que uma pessoa cristã não pode ficar alheia à uma economia que privilegia alguns em detrimento da grande maioria. Ela quer ser uma denúncia ao modelo econômico que privilegia o lucro sem se importar com a miséria, a forme e morte. Uma afirmação de uma economia que garanta a qualidade de vida de todas as pessoas. Busquemos compromissos éticos concretos e de ação na vida da pessoa e na política do Estado.

Ações coletivas estão presentes nas Igrejas e religiões na implantação de ações sociais e políticas que programem um modelo econômico de solidariedade e justiça para todas as pessoas. Desta forma é fundamental o dialogo permanente, a articulação das forcas sociais e a colaboração entre Igrejas e sociedade. As Igrejas devem abandonar a competição e se unirem em vista de uma economia a serviço da vida. A opção pelos pobres não é uma adesão qualquer mas adesão livre ao mandamento do Senhor. Comunidades cristãs na linha apostólica devem dar testemunho de solidariedade com os mais pobres sem distinção de religião, raça ou etnia. Elas são chamadas por Deus à uma economia da vida através da formação de seus agentes, consumo ético, trocas solidarias de bens e serviços, meios alternativos de comunicação e diálogo. Elas não podem cair na tentação de transformar o culto para obter prosperidade. O cristão é um servidor e não recorre a Deus para favores.

Igrejas são espaços para processos educativos aonde os fiéis vão ao templo para orar, celebrar as suas vidas e também querem estar a serviço do Reino de Deus e a testemunhar os valores do evangelho. Elas são convidadas a cuidar do planeta, o respeito à dignidade humana, o combate a toda discriminação. As Igrejas devem incentivar o desenvolvimento de educação popular e uma economia solidária. As comunidades cristãs devem dar testemunho de solidariedade. O mandamento do amor a Deus e ao próximo deve ser compreendido em uma economia do bem comum e do suficiente, economizar de modo responsável e não como um avarento, reciclar, reutilizar, respeitar os dons de Deus e doar aos outros, socorrer os necessitados.

As pessoas e as famílias devem educar-se na unidade doméstica em vista da solidariedade, educação ambiental na evangelização, catequese. A atitude de estar ao lado dos pequenos, conforme pediu Jesus não é somente dar esmola ou distribuir comida, mas a valorização do trabalho, integrar as pessoas para uma atividade remunerada. A busca e conquista do a emancipação do ser humano e do trabalho para todas as pessoas onde elas tenham renda para si mesmas e para suas famílias exige: a alimentação adequada, a erradicação do analfabetismo, a eliminação do trabalho escravo, o combate ao trabalho infantil, a redução da Jornada de trabalho sem redução de salário. A CFE busca o incentivo de bancos de microcrédito e bancos comunitários. A pobreza não é só uma questão política mas mexe com a proposta religiosa.

A justiça e os direitos econômicos são frutos e escolhas pessoais e públicas de modo que e preciso:

- Uma exigência para uma Auditoria da Divida Pública pelo fato de que esta impossibilita investimentos promotores do desenvolvimento das políticas sociais;

- A luta por uma tributação justa e progressiva que exija mais das rendas altas e da riqueza concentrada e menos das rendas mais baixas. O dinheiro vá em direção do povo e não para interessa pessoais;

- A exigência de políticas econômicas redistributivas dos bens e das riquezas;

- A promoção de pressão social para que as pessoas tenham direito à alimentação, direitos sociais, vigilância e amparo para que ninguém peça esmola para não morrer por causa da doença e da forme;

- A instituição do Fundo Nacional de Seguridade Social

- A constituição do Conselho de Seguridade Social que controle a aplicação social dos tributos.

- A preservação do meio ambiente é tarefa da sociedade, do Estado e da missão das Igrejas cristãs para assim evitar a depredação dos recursos naturais como florestas, solo, o acesso à água como direito humano e bem público que não pode ser privatizado e mercantilizado. A luta pelo Reforma Agrária é uma luta histórica de entidades e de Igrejas tanto aos moradores da cidade como os moradores do campo. A CFE apóia ampla mobilização na campanha nacional pelo Limite de Propriedade da terra, em defesa da Reforma agrária e soberania nacional e alimentar em vista de um desenvolvimento solidário para a sociedade brasileira. Todos devem se mobilizar com a coleta de assinaturas. Todos devem participar no Plebiscito a se realizar no Grito dos Excluídos em Setembro de 2010.


MOBILIZAÇÃO DE APOIO AO PLESBICITO DE INICIATIVA POPULAR PELO LIMITE DE PROPRIEDADE DA TERRA, EM DEFESA DA REFORMA AGRÁRIA E DA SOBERANIA TERRITORIAL E ALIMENTAR.


GESTO CONCRETO NACIONAL DA CAMPANHA E FUNDO ECUMÊNICO DE SOLIARIEDADE

A CFE se expressa com a coleta da solidariedade, dado em âmbito nacional em todas as comunidades cristãs, paróquias e dioceses. Ela é realizada no Domingo de Ramos e em toda a Quaresma como expressão concreta de um verdadeiro jejum, pelo envelope e cofrinho com adesivo da CFE.

DIA NACIONAL DA COLETA DA SOLIDARIEDADE
Domingo de Ramos, 28 de março de 2010.
Fundo ecumênico de solidariedade
Fundação Luterana de Diaconia
Rua Dr. Flores, 62 – sala – 901
Porto Alegre – RS
90020-120. Telefone: 51- 3225 9066

Ou

Fundo Ecumênico de Solidariedade
Cáritas Brasileira
SDS – Bloco P – Ed. Venâncio III – Sala 410
70393-902 – Brasília – DF
Fones: 61 3214 5400 ou 61 3214 5418.


1 CONIC – Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil. Campanha da Fraternidade Ecumênica 2010: Texto-Base. Brasília, Edições CNBB. 2009.
Síntese, Pe. Vital Corbellini, Vigário Geral da Diocese de Caxias do Sul.

 
 
 
 
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