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30 anos da morte de Dom Romero
 

 
Há 30 anos, quem matou Romero?
 

A 30 anos do assassinato de Dom Romero, o célebre religioso salvadorenho, o crime não foi esclarecido, mas a pista mais firme aponta a um repressor do Batalhão 601 chamado ou apelidado de Emilio Antonio Mendoza. Mas essa pista nunca foi investigada pela Justiça.

A reportagem é de Santiago O’Donnell, publicada no jornal Página/12, 07-03-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Neste mês, completam-se os 30 anos do assassinato do arcebispo salvadorenho Oscar Arnulfo Romero, ícone universal da defesa dos direitos humanos. O crime ainda não foi esclarecido, mas a pista mais firme diz que um argentino o matou, um repressor da ditadura chamado Emilio Antonio Mendoza.

Seu nome figura em um documento da CIA, desqualificado pelo governo de Clinton em 1993, junto a outros 12.000 documentos que se referem ao El Salvador produzidos pela CIA, pela embaixada, pelo Departamento de Estado, pelo Departamento de Defesa e outras agências federais, em resposta a um pedido do Congresso que acabava de encerrar uma investigação sobre abusos de direitos humanos no país. O documento sobre "Mendoza" foi revelado pelo jornalista salvadorenho Ricardo Valencia em 2006, em uma investigação jornalística do jornal El Día desse país.

O cabo diz taxativamente, sem apelar aos verbos condicionais, que "o oficial militar argentino Emilio Antonio Mendoza foi enviado em 1980 a Honduras junto com outros argentinos pelo general Viola" e que Mendoza "admitiu de fato ter disparado em Romero" e pede à Agência que colete mais informação sobre o sujeito.

Pode ser uma fraude. O documento desqualificado está cheio de rasuras dos censores da Agência e não indica a fonte original da informação, não diz como o agente ficou sabendo. Duane Claridge, um chefe da CIA que supervisava a inteligência da região nesses anos, disse a Valencia que se tratava de informação crua, que não havia sido processada pelos analistas de Washington. Mas não negou sua existência. O diplomata norte-americano Robert White, que assumiu a embaixada poucas semanas depois do assassinato, reconheceu na mesma investigação jornalística que estava a par da existência do cabo, mesmo que sua impressão era de que não havia se produzido "um achado".

Não se deveria descartá-lo. O cabo é mandado pelo "agente legal" da embaixada em San Salvador, ou seja, um homem da companhia. Os agentes da CIA poderão ser uns mentirosos para o resto do mundo, mas tentam passar boa informação a seus supervisores. Mesmo que seja para ganhar o bônus de fim de ano. Além disso, está provado que, no momento do crime, o autor intelectual, Roberto D’Aubisson, recebia instrução de militares argentinos que haviam sido enviados ao El Salvador pelo então chefe do Exército argentino, que era Viola. E, segundo mostram outros cabos desqualificados pelo governo norte-americano, cada vez que se reunia com funcionários dos governos de Carter e Reagan, Viola demonstrava uma obsessão pelo conflito centro-americano.

Quando apareceu o documento da CIA, a causa judicial pelo assassinato de Romero estava encerrada e selada por uma lei de anistia. Por isso, "Emilio Antonio Mendoza" nunca foi investigado pela Justiça salvadorenha.

Na Argentina, muito se escreveu e investigou sobre a participação de repressores argentinos no conflito centro-americano. Mas por diversas razões muito pouco se sabe sobre o funcionamento das estruturas de Inteligência que a Marinha e o Exército montaram na região. Conhecem-se os nomes de pelo menos um marinheiro, Carlos Dürich, e um membro do Exército, Alfredo Zarattini, que estavam no El Salvador perto de março de 1980, em contato direto com aqueles que ordenaram e planejaram o assassinato. Mas a existência de Mendoza – se esse é o seu verdadeiro sobrenome – continua sendo um mistério.

* * *

Dom Romero sabia que iam matá-lo e sabia de onde viria a bala. Ele morreu no dia 24 de março de 1980 de um só disparo no coração, enquanto rezava a missa na capela de um hospital para doentes de câncer. Ele era então o líder mais popular do país e também um pacifista incômodo em um país à beira da guerra civil. Suas homilias, que eram transmitidas por rádio, chegavam a todos os cantos do país.

Havia sido nomeado arcebispo em 1977, com o apoio dos setores mais conservadores da Igreja. Mas a morte de um sacerdote de base muito amigo, assassinado por paramilitares junto com dois agricultores, o levou a denunciar cada vez com mais força os massacres dos grupos paramilitares que se sucediam diariamente. Também o levou a aprofundar sua opção pelos pobres a partir dos textos do Concílio Vaticano II e do Congresso de Medellín.

Quinze dias antes do assassinato, encontraram 72 explosivos de dinamite debaixo do altar maior da igreja do Sagrado Corazón de Jesús de San Salvador, ativados pelo relógio para estourar enquanto ele rezava missa. "Poderão me matar, mas não poderão calar a verdade", contestou-lhes na homilia seguinte.

No dia antes de morrer, ele deu um sermão sobre a morte. "Aos soldados, digo-lhe que os agricultores são sua gente e que levem em conta o mandamento Não Matarás. Nenhuma ordem está acima da lei de Deus. Em nome de Deus, em nome desse povo sofrido, peço-lhes, rogo-lhes que parem com a repressão", pregou. Em El Salvador, nesses dias, matava-se por muito menos.

No dia seguinte ao assassinato, uma bomba estourou na catedral, e francoatiradores abriram fogo contra a multidão que participava da procissão, com um saldo de seis mortos e dezenas de feridos.

* * *

No começo, a investigação judicial foi uma farsa. Três dias depois de assumir o caso, o juiz saiu ileso de um atentado, balearam-no na porta de sua casa. Desde então, ele não demonstrou nenhum interesse por aproximar-se da verdade. Demorou nove dias para mandar peritos à cena do crime, quando já não restavam evidências nem testemunhas. Nunca encontrou nada.

A causa foi reaberta em 1986 com outro juiz, durante o governo do democrata-cristão Napoleón Duarte. Foi graças a um fato, digamos, fortuito. Três meses depois do assassinato, o Exército salvadorenho havia invadido um imóvel onde o então major Roberto D’Aubisson conspirava com um grupo de civis e militares para derrubar a junta militar que ele então governava. D’Aubisson era o chefe dos esquadrões da morte e, mais tarde, seria o fundador do partido de ultradireita Arena, que governou o país durante boa parte dos últimos 30 anos.

Entre os presentes, estava também o capitão da Força Aérea Alvaro Saravia. Os conspiradores foram libertados pouco tempo depois, mas na invasão os militares sequestraram e apresentaram à Justiça vários documentos, entre eles a agenda de Saravia. Nessa agenda, figuravam registros de compras de armamentos e entre eles as de dois rifles calibre 22 compatíveis com os fragmentos de projéteis encontrados no corpo de Romero.

Também figuravam os dados do motorista particular de Saravia, Antonio Garay, um membro da Guarda Nacional. Garay declarou que esteve presente quando D’Aubisson ordenou a morte de Romero e encarregou que Saravia contratasse um franco-atirador diante de vários testemunhas que consentiram com a decisão, pessoas que Garay também nomeou. Ele disse ter dirigido o franco-atirador até a cena do crime, que seu passageiro era "um homem barbudo e bem aparentado" que não conhecia. Afirmou também ter estacionado seu carro na frente da capela e que viu como o passageiro saiu do carro e apoiou a mira de um rifle sobre a roda traseira. Disse que depois ouviu um disparo, e que o barbudo subiu outra vez no carro e que ele o levou a um lugar seguro. Cansaram de lhe mostrar fotos de barbudos bem parecidos, mas Garay não conseguiu identificar seu passageiro.

O juiz incorporou o expediente da invasão à causa do assassinato de Romero e, com base nos dados da agenda e no testemunho de Garay, acusou D’Aubisson como autor intelectual e Saravia como autor operativo. Mas não acusou ninguém pela autoria material.

* * *

D’Aubisson nunca foi processado porque tinha foro de deputado e morreu de câncer antes que pudessem tirá-lo. Saravia havia se mudado para Modesto, Califórnia, onde contratou um advogado caro para brigar pela extradição. Em 1987, a Suprema Corte salvadorenha deu razão para Saravia e retirou o pedido de prisão solicitado às autoridades norte-americanas. Segundo o Center for Justice and Accountability (CJA), uma ONG norte-americana que acompanha o caso há vários anos com o apoio da arquidiocese de San Salvador, o presidente da Corte que retirou o pedido de extradição havia sido o advogado de D’Aubisson durante o primeiro juízo. O caso Romero foi incluído no relatório da Comissão da Verdade publicado em 1993, e semanas depois Saravia foi incluído em uma lei de anistia aprovada pelo Congresso salvadorenho.

Saravia viveu tranquilo por um tempo. Em 1996, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) ordenou reabrir a investigação e ressarcir as dívidas do arcebispo pela responsabilidade que coube ao Estado salvadorenho no assassinato. O governo demorou três anos para responder e, quando o fez, disse que não reabriria o caso porque os responsáveis estavam protegidos pela lei de anistia.

Em novembro de 2004, uma corte civil de Califórnia citou Saravia para declarar sobre o assassinato em uma causa aberta pelo CJA em nome dos familiares de Romero. O capitão nunca se apresentou, e a corte o condenou em ausência a pagar dez milhões de dólares.

Desde então, Saravia se encontra fugitivo, mas dá a impressão de que a Justiça norte-americana não o busca muito. Em uma entrevista ao Miami Herald na clandestinidade em 2006, Saravia se negou a falar do caso, salvo para dizer que ele não havia sido o franco-atirador. Ele ofereceu negociar seu testemunho com as autoridades de seu país e ameaçou: "Se eu falar, o El Salvador treme". Não deixou mais indicações.

* * *

"D’Aubisson era o principal nexo entre a ditadura salvadorenha e os repressores argentinos", disse o politólogo do Colby College, Ariel Armony, autor de "Argentina, Estados Unidos y Cruzada Anticomunista en América Central 1977-1984" (Ed. UNQ, 1999), o livro de referência sobre o tema.

"Os salvadorenhos admiravam os argentinos. Não precisavam que lhes ensinasse a ser violentos, porque sua história está cheia de violência. O que aprendiam era como usar essa violência de maneira mais efetiva. Na Guatemala, atiravam agricultores ao mar de aviões e helicópteros, algo nunca visto até a chegada dos argentinos".

O próprio D’Aubisson reconheceu ter sido instruído por militares argentinos no El Salvador em uma entrevista de 1983 com Laurie Becklund do Los Angeles Times: "Eles [os argentinos] estiveram aqui por um curto tempo, mas esse tempo foi muito útil. Transmitiram suas experiências e informaram a nossa gente para lhes sugerir que atuassem desta ou desta outra forma usando esse sistema, como conseguir informação e como analisá-la".

Segundo o testemunho secreto do repressor Leandro "Lenny" Sánchez Riesse, diante de um subcomitê do Congresso dos Estados Unidos, a partir de 1979 desembarcou na América Central um "Grupo de Tarefas Exterior" (GTE) do Batalhão 601, a estrutura de inteligência do Exército, a mando do coronel José Osvaldo "Balita" Riviero. Armony obteve uma transcrição desse testemunho por meio da lei de informação pública. Outras investigações acadêmicas e jornalísticas contribuíram com mais nomes e mais provas sobre a presença de repressores argentinos na região.

"Quando ocorreu o assassinato de Romero, o GTE se encontrava em seu apogeu, já que recém meses depois, em 1981, nas últimas semanas do governo de James Carter, o governo norte-americano aprovou a primeira operação encoberta da CIA contra os sandinistas. Até então, o trabalho sujo era feito pelos argentinos", diz Armony.

Os cabos desqualificados em 1993 indicam que, para a CIA, os militares argentinos eram úteis, mas também difíceis de lidar. "Eles estão dispostos a tudo. Só faz falta que lhes digamos o que eles têm que fazer", diz um deles. "Em um bom dia, são sóbrios e mal humorados, em um mal dia agem por conta própria contra a política do nosso governo", diz outro.

* * *

No ano passado, o ex-grupo guerrilheiro da Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional ganhou pela primeira vez as eleições presidenciais no El Salvador. No discurso do dia do triunfo, o flamante presidente Mauricio Funes proclamou que seguiria o ideário de Dom Romero. No dia da posse, horas antes da cerimônia, Funes visitou o túmulo do arcebispo na catedral de San Salvador. Na semana passada, ele repetiu a visita com Lula.

Por isso, contam em El Salvador, o 30º aniversário da morte de Romero será como nenhum outro, com importantes atos e cerimônias oficiais. Dizem que um gigantesco mural do arcebispo está sendo pintado na entrada do aeroporto internacional para receber com a sua imagem os visitantes que chegam ao país.

Em novembro do ano passado, a embaixatriz na OEA do governo de Funes anunciou a reabertura da causa pelo assassinato de Romero em resposta ao pedido da CIDH de 1986.

Enquanto isso, na Argentina, a Secretaria de Direitos Humanos do Ministério de Defesa ainda não recebeu nenhum pedido de informação sobre o suposto assassino Emilio Antonio Mendoza, disse a diretora da secretaria, Ileana Arduino. A funcionária esclareceu que recebeu, sim, outros pedidos de outros governos sobre outros repressores.

O tal Mendoza não figura com esse nome nos arquivos da Conadep, nem nos do CELS, nem nos do Cemida, constatou o jornalista salvadorenho Valencia em 2006. Esse cronista pôde comprovar que também não existem dados sobre "Mendoza" nas diversas dependências do governo que se ocupam do assunto, nem nas listas de pessoal civil de Inteligência do Batalhão 601, recentemente desqualificados por decreto do governo de Cristina Kirchner, nem na base de dados que a revista Veintitrés publicou, com o pessoal que atuou no 601 durante a ditadura. Ali, figura um José Emilio Mendoza na categoria de "datilógrafo", mas o jornal pôde averiguar que, durante a ditadura, ele esteve destinado para Formosa.

Não é fácil investigar a atividade de espiões no exterior em nenhum país. O decreto firmado por Cristina Kirchner exclui atividades no estrangeiro e a guerra das Malvinas. Além disso, a colaboração a partir da América Central foi exígua ou nula. "Nós escrevemos muitas vezes ao governo sandinista perguntando pela atuação de militares argentinos na época da ditadura, mas os nicaraguenses nunca nos deram informação e às vezes nem sequer nos responderam", indica uma fonte do governo.

Neste mês, completam-se os 30 anos do assassinato de Dom Romero, ícono universal da defesa dos direitos, e seu assassino anda solto. Neste momento, ele pode estar tomando uma piña colada em Miami. Ou comendo uma "pupusa de chicharrón" em San Salvador. Ou, por que não, caminhando tranquilo pelas ruelas de Buenos Aires.

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