O Brasil é cada vez mais urbano. Em 1960, com uma população de cerca de 71 milhões de habitantes, 45,08% habitava na cidade (e 54,92% na área rural). Nessa década começou uma inversão: em 1970, 55,94% da população já era urbana, 67,59% em 1980, 75,59% em 1991, para chegar, em 2000, com uma população de 170 milhões, a 81,25% (a área rural caiu para 18,75%).
Foram crescendo as megacidades. Somente o município de São Paulo passou de cerca de 6 milhões em 2000 (sem contar a enorme área metropolitana circundante). Os municípios de Salvador, Belo Horizonte e Porto Alegre, passaram, em 1970, de 1 milhão, 1,23 milhão e 885 mil respectivamente, para 2,43 milhões, 2,23 milhões e 1,36 milhão em 2000 . Cada um desses centros urbanos está rodeado por enormes periferias. Theodore Roszak indicou que eles são “enormes, mas não suficientemente grandes” . Têm uma dimensão desmesurada, mas ainda estão fechadas sobre eles mesmos, são de certa maneira provincianos, não totalmente abertos ao nacional e, muito menos, a um mundo planetário intercomunicado. Faz muitos anos, David Riesman, assim definiu a população das cidades: “uma multidão solitária” . É só observar a saída de um metrô ou uma estação rodoviária em horas de pique: pessoas que se entrecruzam sem se olharem, na solidão de um coletivo. Proximidade física, isolamento mental.
Mas essas cidades são também espaços de uma enorme circularidade migratória. Todo o país, aliás, é um grande corredor de migrações em diferentes direções: do nordeste ao norte, do sul a Rondônia, do nordeste ao sudeste, com retornos mais adiante. E as cidades maiores vão recebendo fluxos que vêm de cidades pequenas ou médias e de regiões rurais. Os limites entre o urbano e o rural são instáveis, a televisão e os hábitos das cidades permeando o mundo rural. Padre João Batista Libanio escreveu um panorâmico e sugestivo livro sobre as lógicas da cidade, analisando ali tempo e lazer, pluralidade cultural, participação, mobilização, trabalho, poder e valores .
As periferias das cidades e as favelas reúnem uma população heterogênea, que deixou para trás suas raízes e suas referências, procurando refazer uma identidade perdida. Gustavo Gutiérrez vem desenvolvendo uma profunda reflexão em torno à pobreza como uma realidade complexa e planetária e, pensando nos milhões de seres humanos que se amontoam nos bairros miseráveis, lança a pergunta: donde duermem los pobres? Temos a população de rua, os meninos de rua e na rua, o mundo do subemprego, dos biscates, dos catadores, etc.
Nesses espaços a Igreja católica desenhou, faz vários séculos, suas estruturas paroquiais tradicionais. Elas se implantaram num mundo relativamente estático, onde, em geral, moradia, lugar de trabalho e de lazer, eram relativamente próximos. Hoje, cidades-dormitório lançam seus moradores pela madrugada para áreas afastadas e os recebem novamente à noite, Qual o espaço mais decisivo para o cotidiano de cada um? Ou talvez se trate de mais de um, de acordo com a atividade, a classe social ou a faixa etária.
Há portanto uma desadequação entre a rede eclesial traçada no passado e as movediças relações humanas atuais. Faz já alguns anos, a pastoral operária ia buscar os trabalhadores nas portas de fábricas, a pastoral estudantil nas escolas, etc.
Desafios para a pastoral
A partir desses elementos introdutórios, enunciaremos alguns desafios que se colocam para a pastoral.
1. O acolhimento. Na pesquisa que o CERIS realizou em 1999, nas seis maiores cidades do país, sobre as tendências do catolicismo no Brasil, um dos problemas centrais indicado foi o acolhimento dos fiéis, freqüentemente anônimo e distante nas estruturas paroquiais. Ele é mais direto e afetivo nas pequenas congregações pentecostais e neopentecostais, que surgem sem parar nos bairros populares da cidade. Ali, os pastores e os obreiros que recebem são pessoas do próprio meio (o pedreiro, o motorista, a dona do pequeno comércio, a faxineira), com fácil interação com aqueles que transitam nas imediações. Nesse sentido, as CEBs, os movimentos e as pastorais também cumprem essa função de nucelar pequenas comunidades. As cidades exigem novas dimensões que não se podem reduzir aos espaços paroquiais. O próprio acolhimento e as celebrações deverão adequar-se aos horários possíveis das populações urbanas em trânsito contínuo. Entretanto, o que os dados das pesquisas indicam é que há uma demanda crescente pelo religioso ou, em termos mais gerais, pelo sagrado. Resta saber como responder a essa necessidade. Isso nos leva ao tema seguinte.
2. A comunidade de Fé. A Fé é um aprendizado contínuo, que não se dá de uma vez por todas, pela administração de um sacramento ou pela freqüência eventual a uma celebração. Nem por atividades de um entusiasmo passageiro sem continuidade. Ao estudar alguns movimentos de juventude dos anos setenta, João Batista Libânio observou que tiveram momentos de grande visibilidade, mas muitos deles desapareceram quase sem deixar traços. A multidão que se congrega num praça ou num estádio, passado o momento de empolgação, pode dispersar-se e voltar aos seus hábitos e rotinas cotidianos. É indispensável um certo processo de crescimento.
3. Uma educação na fé. Podemos encontrar uma resposta a este desafio anterior na própria prática pastoral da igreja brasileira. A pedagogia da antiga Ação Católica especializada, com seu método ver-julgar-agir, sua revisão de vida contínua, suas reuniões periódicas, exercia um trabalho de formação permanente. Havia momentos de impacto no meio (campanhas de páscoa, missas estudantis, peregrinações, retiros ou acampamentos), mas eles eram seguidos por um trabalho de nucleação em torno a pequenas equipes relativamente homogêneas, com um dirigente mais preparado e uma certa presença do assistente eclesiástico. Isso assegurava um ritmo, a criação de novos hábitos religiosos e um real crescimento ao nível da ação (apostolado), da espiritualidade e da oração. Foi uma escola de “formação na ação” e, até hoje, seus membros podem ser identificados por uma certa maneira de ser, pensar e de reagir, mesmo que alguns deles não tenham persistido numa prática religiosa.
4. Dificuldades na comunicação. Há, freqüentemente, uma inadequação dramática nos meios de comunicação da Igreja. Estes muitas vezes deixam a desejar no que se refere à professionalidade e à atenção para um público mais amplo, interessado apenas àqueles que já fazem parte da vida eclesial. Nas celebrações, em lugar de uma partilha criativa e questionadora da palavra de Deus, nos encontramos tantas vezes diante de homilias rotineiras, cansativas, de estilo ultrapassado, monólogos cacetes. Qual a capacidade de sedução e de apelo? Os meios são diferentes, tratando-se de uma pastoral de massa ou de um trabalho ao nível das comunidades. Mas ambos deveriam estar dentro das chaves de sensibilidade das pessoas a que se destinam e de uma opinião pública diversificada, segundo origem social ou etária.
5. O mundo dos jovens. Uma observação impressionista, nas missas dominicais de paróquias urbanas, chama a atenção para a faixa etária dos participantes: há uma grande maioria de pessoas de meia idade, às vezes acompanhadas por crianças. É verdade que, em certas horas, há missas especializadas para jovens, mas sua visibilidade é relativamente pequena no conjunto dos fiéis, em contraste com sua proporção significativa na população.
Entretanto, há várias e criativas pastorais de juventude espalhadas pelo país (PJs, pastoral de juventude rural, pastoral de juventude dos meios populares, muito pouco de juventude estudantil e algumas pastorais universitárias). Dessa juventude vão surgindo futuras lideranças sociais e eclesiais. As pastorais de juventude têm fornecido quadros para os movimentos sociais. Assim, por exemplo, muitos dirigentes do MST tiveram como origem PJs do Alto Uruguai, de Santa Catarina ou, nos últimos anos, do Piauí ou do Rio Grande do Norte. Também o movimento sindical e os partidos políticos populares se beneficiaram com a participação de jovens dessa origem.
Centros de formação da juventude (Porto Alegre, Goiânia...), em anos passados, tiveram importância na multiplicação de quadros. Uma prioridade especial deveria ser dada a esse trabalho com jovens, tanto entre os que provêm dos meios populares como entre estudantes. Voltando ao indicado acima, é só pensar no papel da JOC ou da JUC no passado. No meio universitário, entretanto, as experiências são atualmente rarefeitas. Mas para avançar nesse campo dos jovens, é necessário entrar em quadro mentais, sua sensibilidade e aspirações, procurando interessar setores dinâmicos e inquietos. Do contrário, essas pastorais acolherão jovens marginais em seu meio, apenas sensíveis a uma espiritualidade intimista ou a pequenas ações intra-eclesiais.
6. Uma ética para repensar. A Igreja tem uma certa dificuldade para tratar dos temas da sexualidade, da reprodução e do prazer. Não é suficiente ficar numa crítica negativa de hedonismos ou da permissividade, sem analisar com cuidado o surgimento de novas sensibilidades, outros hábitos e mudanças culturais. O tema do prazer é um bom exemplo. Freqüentemente, é visto com desconfiança, o que não deixa de denotar, às vezes, um certo jansenismo inconsciente. Seria necessário enfrentar com coragem e determinação os temas da sexualidade. O problema da pedofilia é apenas a ponta de um iceberg bem mais vasto e desafiante. Análises realizadas ultimamente em Igreja de países desenvolvidos, como a Holanda e os Estados Unidos, trazem dramáticas observações. Dois recentíssimos estudos nesse último país, bastante inquietantes, indicam um esvaziamento da Igreja, por não saber enfrentar problemas atuais, vários deles ligados à vida afetiva. O título de um dos livros é expressivo: “um povo à deriva”. Escritos por cristãos comprometidos, ambos insistem na necessidade de dar mais espaço e ministérios aos leigos, no poder compartido das igrejas particulares. O que encaminha ao próximo ponto.
7. Uma comunidade eclesial de fiéis responsáveis. As atuais estruturas eclesiásticas foram se constituindo em torno aos clérigos, no começo de segundo milênio, a partir da reforma gregoriana do século XI. Hoje vão surgindo sempre mais ministérios não-ordenados – diaconais – para atender a diferentes necessidades. O eclesiástico se abre ao eclesial mais amplo. CEBs, pastorais e movimentos apontam nessa direção. E não se trata de uma divisão de trabalho em que os leigos e as leigas são enviados ao mundo, deixando as estruturas e o poder eclesiais na mão dos clérigos. Como compartilhar responsabilidades, direitos e deveres? O problema é ainda maior no que se refere às mulheres, leigas e religiosas, uma maioria nos espaços das igrejas locais, co pouco acesso à tomada de decisões no âmbito de estruturas predominantemente masculinas.
Ação católica, para Pio XI, nos anos trinta do século passado, era a “participação dos leigos no apostolado hierárquico”. Anos depois, o termo foi atenuado para “colaboração” e, no Código Canônico atual, fala-se de “cooperação dos leigos no poder de jurisdição” (um primeiro anteprojeto falava diretamente de participação). Insiste-se no protagonismo dos leigos, mas muitas vezes isso é mais uma declaração de boas intenções do que uma efetiva prática eclesial.
8. Práticas novas de grupos de oração. Por todo o país vão surgindo experiências diversificadas e flexíveis de grupos que se reúnem para refletir juntos, rezar, celebrar, às vezes em comunidade ecumênicas ou mesmo inter-religiosas. Muitas delas têm uma característica em comum: insistem num certa informalidade, não querem integrar-se em estruturas mais amplas. O cuidado pastoral deveria estar atento a essas experiências, respeitando suas caminhadas, sem querer integrá-los à força nas pastorais habituais. Aliás, uma pergunta se impõe para a revisão corajosa das igrejas locais: porque essa rejeição à institucionalização? Qual a imagem das estruturas eclesiais que se passa para a opinião pública? O importante não é tanto o elo jurídico formal, mas a criação de novos laços de comunhão a serem desenhados com inventividade. As mais de seis mil pessoas que recentemente acorreram de todo o país a Goiânia, para o encontro do movimento Fé e Política, em torno ao tema: “À procura da terra prometida”, mostram um latente e vigoroso espaço de congraçamento e de convocação espiritual.
9. As pesquisas sócio-religiosas. A formulação de uma pastoral urbana requer um permanente trabalho de pesquisa para que, de um adequado diagnóstico, possam fluir diretrizes eficazes e ações renovadas e corajosas. O CERIS, através de seu núcleo de pesquisa, tem procurado atender solicitações da CNBB, de Igrejas locais e de diferentes pastorais.
Já nos referimos acima à pesquisa de 1999, nas seis maiores cidades do país, sobre crenças e motivações religiosas, prática religiosa e participação social, meios de comunicação e orientações ético-religiosas. A título indicativo, vão alguns resultados que já tivemos a oportunidade de apresentar na 40ª Assembléia Geral de 2002. A primeira motivação para crer, entre os católicos, é “realização de um sentido de vida e encontro de justiça, paz e harmonia pela religião” (37,2%) e só depois, “influência do ambiente familiar e da tradição” (26,5%). Há uma centralidade na crença em Jesus Cristo (82,5%), mas uma certa oscilação entre crer na imortalidade da alma (63%) e na reencarnação dos mortos (35,8%) entre os católicos.
Mas é nas orientações ético-religiosas que se encontra uma das maiores discrepâncias entre a conduta individual e as orientações da Igreja, principalmente no que se refere aos métodos contraceptivos (73,2% a favor), ao sexo antes do casamento (43,6% a favor), a posições contrárias ao celibato obrigatório (34,5%, em relação a 33,1% que estão de acordo com ele), ou favoráveis a um segundo casamento (62,7%). Já a rejeição ao aborto é grande (71,8%), assim como a prática da homossexualidade (60,6%). Mas todos esses padrões estão possivelmente bem próximos das opiniões da população em geral. É Interessante notar que, entre os católicos, prevalece a opinião de que a Igreja deveria debater, orientar mais do que impor sua visão de conduta. Apenas uma minoria indicou que a Igreja não deveria envolver-se. Como não abrir uma corajosa reflexão em todos esses pontos, tão sensíveis na sociedade?
Está em etapa de conclusão uma segunda pesquisa sobre novas formas de crer, também nas seis maiores regiões metropolitanas do país, entre católicos, pentecostais e sem religião. Essas duas pesquisas encaminham a uma terceira, que acaba de ser solicitada pela CNBB, sobre migração e trânsito religioso no Brasil, um levantamento nacional a respeito das motivações que levam as pessoas a mudar de religião e/ou abandonar o catolicismo. Serão visitados 160 municípios, em áreas urbanas e rurais. Estão em fase de análise duas outras pesquisas, uma sobre o perfil do presbítero brasileiro, solicitada pela Comissão Nacional de Presbíteros, com uma amostra e 1.800 sacerdotes e outra sobre a religiosidade da população do Piauí, a pedido do bispo do regional Nordeste IV.
10. Um horizonte à nossa frente. Há meio século, no começo dos anos cinqüenta, no pontificado de pio XII, o Magistério havia se manisfestado sobre quase todos os aspectos da realidade eclesial e social daquela ocasião. Na aparência, todos os temas pareciam esclarecidos. Entretanto, havia latente a sensação de que era necessário repensar uma série de problemas e de interrogações que o mundo moderno do pós-guerra ia levantando. Coube a João XXIII, considerado num primeiro momento apenas um “papa de transição”, reabrir uma grande pauta de candentes questões pastorais, convocando o Vaticano II e publicando “Mater et Magistra” e “Pacem in Terris”. Começou então um tempo de profunda criatividade eclesial, que o papa chamou de “inesperada primavera”.
Os novos desafios urbanos, neste começo de milênio, poderiam exigir uma tarefa semelhante num próximo futuro. Aliás, nessa direção apontam os documentos de João Paulo II, “Tertio Millennio Adveniente” e “Novo Milennio Ineunte”, desvelando novos horizontes e a necessidade de repensar práticas pastorais. Possivelmente termos diante de nós um tempo de discernimento onde, mais do que apressadas orientações conclusivas e definitivas, será necessário formular sem medo interrogações precisas e audazes, num espaço de experimentações. Toda a comunidade eclesial poderia então ser convocada para uma reflexão comum, aproveitando-se diferentes competências e diversidade de carismas. Isso exigiria um profundo espírito eclesial, grande abertura de espírito, misericórdia e compaixão diante de dolorosos e contraditórios impasses e problemas. Desse tempo de revisão de vida do Povo de Deus, o Magistério poderia extrair, então, novas orientações, para enfrentar imprevistos e inéditos questionamentos emergentes.
Arquivo: Os desafios urbanos para a igreja na atualidade.